Tudo está estático, tudo está perfeito, tudo está, e fica, como sempre foi. Tudo está brilhante, claro, ameno e, de certa forma gracioso. Não sei, porém, de onde vem a graça, pois tudo fica, nada vai ou vem, e é na troca de valores que se gera riqueza. Não fui eu que inventei isso, é a lei básica dos negócios.
Nada nunca acontece. Acho também que prefiro assim, prefiro somente envelhecer, seguindo o rumo natural das coisas. Nada de brigas ou de amores, nada de noites em claro pensando em como a vida é injusta. Somente vivo, ou sobrevivo, ficando mais velho e trabalhando. Somente isso.
Mas nesse mundo, meu amigo, todos estão fazendo acontecer. Eles gostam de sofrer, de viver, de fazer com que as coisas, que seguiriam seu rumo natural, façam com que se sintam nos limites. Não seria uma pessoa sozinha, como eu, que iria mudar o mundo. Então o mundo me mudou.
Piscaram-se os olhos. E nesse piscar de olhos, me perdi. A minha realidade, o meu mundinho, transfigurou-se, transformou-se em outro mundo completamente diferente. Não há como resistir aos apelos mundanos. Toda minha vida, que até ali estava tão certinha, tornou-se instável, e, com ela, eu.
Tudo mudou tão de repente que ainda não sei exatamente quando minha vida terminou e quando ela realmente começou, depois de terminar. Sim, parece um paradoxo, mas foi exatamente isso. Tudo ficou tão mágico, tão cheio, tão paradoxalmente perfeito, que quanto mais eu tentava voltar pro meu caminho, mais o caminho se voltava contra mim. Uma imagem resume tudo: uma mulher.
Óbvio, não? Quer dizer, é tão óbvio que isso iria acontecer comigo. Porque acontece com todo mundo, não é? É assim que as coisas são. Mas naquela época eu não sabia que esse era o rumo natural das coisas. Que esse era o caminho pelo qual devia seguir, como qualquer um segue. Mas eu achava que estava saindo do meu rumo.
E cada dia eu me achava mais diferente, mais fora dos padrões. Cada dia a imagem da mulher ficava mais nítida, mais cheia de detalhes. Eu já podia perceber a cor de seus olhos, as roupas que vestia, o jeito com o qual ajeitava o cabelo por trás da orelha pra disfarçar a timidez. E cada dia, a via mais, a queria mais. Era necessária. Era precisa. Era perfeita.
Então os olhos piscaram-se novamente. Mas desta vez, não importava se eu estava de olhos abertos ou fechados. Nada aparecia. A imagem dela não estava mais lá. Os olhos lacrimejavam, esboçando choros, procurando onde ela poderia estar. Aquela imagem, necessária, havia sido roubada. Ou então só decidiu sumir, não sei muito bem.
Mas os olhos não se importavam com porquês e talvez nem se interessassem por meras explicações sobre o destino daquela imagem que se apagou. Eles procuravam, incessantemente, por algo ao menos parecido, que os fizesse sentir aquele carinho terno novamente. Mesmo assim, quanto mais piscavam, menos encontravam. Não viam nada além de um grande nada.
Tudo agora está estático, tudo está, e fica, vazio. Tudo permanece, como antes permanecia. Pena que dessa vez o desgosto era presente 24 horas por dia. Os olhos não se conformavam em perder algo tão precioso e maravilhoso. Percebiam que não poderiam encontrar algo similar. Tudo estava tão vazio que pareceria muito mais fácil e racional se os olhos simplesmente não piscassem mais. Só assim tudo estaria estático, tudo estaria, e ficaria, como sempre há de ser.
E assim se fez.