Auto-biografia de um falso
Quando eu tinha apenas onze anos, já sabia que não era como um dos outros garotos da escola. Nunca gostei da mesma coisa que eles, nunca brinquei com muitos deles.
Meus pais nunca ligaram para o que eu sentia, nem ligam pro que sinto. Nunca tive problemas com eles, problemas relevantes. Ás vezes me colocavam em uma escolinha de alguma coisa, algo como natação ou teclado. Fiz muitos anos de ambos, mas nada aproveito deles agora. O normal na época era isso: lotar seu tempo ocioso e precioso com coisas basicamente inúteis, que só serviriam para alguma coisa se quisesse ter saúde (o que realmente não tenho) ou impressionar os outros (posso fazer isso sem escolinha, apenas usando de palavras fáceis).
Naquela época, eu ainda não tinha impulsos sexuais, como tenho agora. Era apenas um garoto diferente dos outros, pra melhor, eu diria. Naqueles tempos, naqueles áureos tempos, eu apenas servia para pensar pouco, rir muito e mostrar notas ótimas. Naquela idade eu não sabia o que era.
Com treze anos, uma revolução. Pareceu que meus hormônios me despertaram, me fizeram começar a pensar e, então, descobri que eu realmente era bem diferente: um garoto solitário e pensativo.
Eu, mesmo agora sabendo o que era, continuei no mesmo. Continuava rindo com os "amigos", tirando notas excepcionais e escondendo esse meu lado lindo e romântico, pensativo e sonhador. Tentava ir contra o rumo natural, mas o pensamento e a fixação não me deixaram.
Então, fui me afastando de minha vida social. Não ia à festas, não saía de casa desnecessariamente, não queria saber mais de rir. Meus "amigos" agora descobriram uma pessoa diferente em mim, mas não sabiam exatamente quem era.
Posso responder o que era. Era um cara falso, mentiroso, que fingia ser alegre apenas para não perder o pouco que tinha, um chantagista, um idiota que não sabia nada. Um escrotinho. Continuei um ano assim.
Aos catorze, na verdade a partir dos catorze, conheci uma série de pessoas que me tiraram desse caminho. A primeira e mais importante, conheci na escola mesmo, meu professor de matemática. Mário, nunca me esquecerei de você, cara, mesmo que hoje mesmo não se lembre mais de mim, não me cumpimente mais. Ele me mostrou que eu não era aquela pessoa forte que achava que era, aquela pessoa inteligente que achava que era. Naqueles meses de aula que tive, ao mesmo tempo que minhas notas caíam até sessenta (uma nota nunca antes tirada por mim), ele se mostrava um cara realmente inteligente. Mais inteligente que todas as pessoas que já vi, que já conheci. Com apenas vinte e quatro, ele dava aulas de química e matemática, formado nas duas, e nem por causa disso se mostrava assim. Era apenas mais um tutor bem humorado e piadista. Um cara muito humilde.
A segunda pessoa, não menos importante, foi o Álvaro. Meu grande amigo, nunca me abandonou, mesmo estando a milhares de quilômetros daqui. Ele era (e é) um cara igualzinho a mim, nos gostos e nas ações. Bem inteligente, astuto, sagaz e realmente interessante. Ele me formou e informou durante esses dois anos que o conheço. Um exímio escritor e um fiel e grande amigo. me ensiou muitas coisas impressionantes, me ajudou a ser o que sou hoje, me ajudou a descobrir quem eu era.
A terceira, foi a minha amiga Luciana (não confundam, ok?). Também muito parecida comigo, inteligente (mesmo que não reconheça isso e ache que não o é) e linda (pelo menos nisso é diferente, mas não muito, de mim). Ela abriu meus olhos para a maravilha da literatura online, mesmo que não saiba disso. Te adoro, girl.
Quando entrei no segundo grau, ensino médio, me formei quanto à personalidade. Solitário, introvertido, anti-social, mas muito bem humorado, inteligente, romântico e até certo ponto humilde. Depois de ter passado belos sufocos com Mário, percebi que eu era idiota e irresponsável, que me apoiava em minha facilidade acadêmica em vez de aprimorá-la. Ele puxou meu ponto de apoio, e eu caí na armadilha dele, feito um patinho. Me mostrou que eu não era um cara inteligente, apenas capaz. Me ensinou que capacidade é diferente de força, que , mesmo sendo capaz de acertar, qualquer um pode errar, ou até se tornar um erro. Decidi então melhorar meus estudos e melhorar cada vez mais para que, algum dia, mesmo que me torne professor, saiba quem sou e o que faço.
Conheci muitos caras que são e foram muito importantes para mim nesse ano. Marcão, você foi o cara mais importante que já conheci em carne e osso. Você me mostrou meu futuro de vida, minha utopia de ser. Você me mostrou que em tudo na vida há uma grande parte má, mas que com empenho odemos nos tornar amigos, e grandes amigos, dos inimigos. Me ensinou que se começar bem, mal não terminará. Me ensinou que se tiver autoridade, dela se deve gozar e dela se deve tirar o sumo. Se eu algum dia ganhar um prêmio, seja pelo que for, será todo seu. Pierre, grande bombadão sentimental, você me mostou a alegria e o romantismo por trás de um dos mais brutos homens que já conheci. Me mostrou que eu posso ser o que quero ser. Me ensinou literatura, me mostrou todo um universo inteiro de coisas novas. Uderson, você me mostrou que um homem que batalha na vida vira o Google, vira um homem tão inteligente que, mesmo sem muita formação, impressiona a qualquer um. Me mostrou que ser politicamente correto não quer dizer ser petista ou comunista.
Conheci pessoas internéticas também. Lívia, te gosto muito. Adoro nossas conversas sobre qualquer coisa. D, Você ainda não é uma pessoa com muita presença, mas mesmo assim sinto que você é uma pessoa mointo legal. Pena que não aparece. Lucita Arqueira e Syl, Vocês são ótimas, adoro vocês. Venham me visitar e não façam cara feia, ok?
Hoje, com quinze anos, ainda não sei quem sou, somente superficialmente. Sei que sou um suicida que não passará dos cinquenta. Um homem de capacidades absurdas, mas pensamentos pequenos. Um cara que ama, sem ter ninguém. Um chinês em um caminhão de chineses, um solitário. Um romântico sem amor, um trem sem vapor. Um espelho sem brilho, um idiota.
Um homem qualquer.