O paradoxo vivo
O meu erro foi tê-la conhecido naquela tarde de verão, no cais, no farol, sozinha. Ela me pegou. Ela realmente me pegou. Apunhalou-me nas costas no momento mais (in) oportuno.
Toda história tem um começo, e o desta é o fim. Não o fim da história, mas sim dos meus dias de sossego, de paz, o fim dos meus dias como uma pessoa normal.
A bola de neve começou a se formar naquele dia em que encontrei minha namorada, na cama, com outro, sendo assistidos por sete mil pessoas na internet pela webcam. E o pior é que eles não haviam bebido.
-O que significa isso?! - eu disse, utilizando a pergunta clichê.
-Não é nada. Não amo ele. Só tenho olhos pra você, amor. - disse enquanto colocava suas roupas.
-Pode até ser que me ama e que tem olhos só para mim. O problema é que tem todo o resto para ele, se é que me entende. Sinto em dizer isso, mas sou de uma seita indiana que trata os infiéis com a morte.
Saquei um três-oitão. Disparei três tiros. Uma na mulher, outra no homem e outra na webcam, maldita.
Tive de partir o quanto antes. Matar não é uma coisa muito boa. Mas eu diria que é corriqueira. Tão corriqueira que me arriscaria a dizer que matar já faz parte do roteiro de vida de todos nós.
Fugi. Fugi como um covarde, com o rabo e a arma entre as pernas (nunca se sabe quando uma revista policial pode acontecer). Fugi como um cão sarnento correndo de um açougue depois de abocanhar um filé mignon.
Então rodei até o outro lado do país. Conheci muita gente famosa, desconhecida, rica, pobre, suja, limpa... Todos tiveram a mesma importância pra mim.
Até que o dia fatídico chegou. Eu o chamo de dia E (o D estava ocupado). Parei o carro na praia, na beira do oceano. Caminhei, sentindo o doce e suave perfume do mar. A força do vento soprava meus cabelos, que não haviam sido aparados por meses e, junto com eles, soprava o tempo.
Depois de caminhar, avistei, de longe, um farol. Mas havia algo estranho na sua luz. Havia a sobra de alguém. Chegando no farol, subi rapidamente suas escadas.
E lá estava ela, sorrindo, como se estivesse esperando por mim. Era como um anjo que caiu na minha vida. Tinha lindos olhos cor-de-mel, cabelos negros como as brumas noturnas, sua pele era sedosa e macia e ela sorria como ninguém havia sorrido antes em todo o mundo.
-Olá, passageiro. Feliz em me ver?
-...
-Fala minha língua? - disse ela. Suas palavras saiam de sua boca como água que brotava no meio do deserto mais seco e árido.
-...O que está havendo comigo? - eu falei, ainda impressionado com aquela aparição que estava ali, bem diante de meus olhos.
-Quer dar um passeio comigo na praia?
-...Mais que nada no mundo.
-Então vamos logo. - puxando meu braço.
Andamos pela praia até o sol se por. E andamos até o sol raiar novamente. Estávamos mudos desde o farol. Ela andava...Não, ela flutuava à minha frente.
Não conseguia tirar os olhos de seu rosto lindo, tenro e feliz. Ela me fascinava. Mas o que sentia por ela não era amor. Ela só me transmitia medo e tristeza. E eu, não sei como, gostava disso. Era uma experiência única em toda a vida.
Enfim paramos, junto ao meu carro que estava ensopado pela maré alta. Quando ela viu, me disse rindo:
-Este é seu carro? Então acho que precisa de um novo.
-...É. Mas meu carro era minha casa. A lua acaba de me despejar.
-Venha para minha casa então. Pode ficar lá até arranjar outro lugar.
-...Se for assim não procurarei outro lugar. Ficarei ao teu lado.
Chegando lá, percebi que não era um lugar grande. Perguntei a ela se realmente queria que eu ficasse lá, com ela. Ignorando-me, disse para eu me sentir em casa.
-Tenho que falar com você. - eu disse, em tom sério - Acho que o que tenho a dizer mudara sua opinião.
-Se você me diz assim, acho que concordarei. - falou-me, mais uma vez me encantando com seu lindo sorriso.
-Não tenho casa, mas não tenho porque fiz algo muito errado. Eu matei minha namorada, matei seu amante e fui assistido por sete mil pessoas na internet.
-Ah, você é o assassino do vídeo engraçado...
-Você estava assistindo?
-Não, mas você é muito famoso por aqui.
-Então! Não é algo sério?
-Se quer saber isso resolve todos meus problemas e realiza todos meus sonhos.
Fiquei confuso. O que eu, o "assassino do vídeo engraçado", teria a ver com os sonhos e problemas dela? Fazendo a típica cara de Monalisa, eu disse:
-...É?
-Claro! Agora não tenho mais razão pra ficar aqui! Agora tenho motivos para sair de casa e viajar, sem rumo, com alguém que mal conheço!
-E este é seu sonho? Digo, isto o que quer da vida? Simplesmente encontrar com um desconhecido problemático e fugir com ele, sem rumo, à mercê do fado?
-Hum, você capta bem as coisas.
Ficava cada vez mais confuso. Quem era ela? O que ela queria de mim? Esse negócio de sair, sem rumo, com um desconhecido parecia desculpa para sair de casa.
-Vamos? - ela disse.
-...Temos de ir. A polícia pode me acabar achando a qualquer momento. Mas...
-O quê?
-Tem certeza que é isso que quer da vida? Sabe que será uma vida miserável e difícil, não é?
Mais uma vez ignorou-me, e se concentrou em sua mala. Pegou o essencial e partimos, em seu carro.
Viajamos e viajamos. Ainda estamos viajando. Parece que há um pacto inconsciente entre nós. Não perguntávamos nada sobre nós mesmos.
A cada dia mais e mais a odeio. E mais e mais a adoro. Ela parece fútil e inteligente. Frágil e forte. Criança e adulta. Um verdadeiro paradoxo ambulante.
Todos os dias penso em suicídio. Todos os dias hesito. A cada dia tenho mais amor à vida.
Cada dia traz consigo uma carta de despedida de um suicida. Está é a trecentésima sétima vez que escrevo esta história de minha vida. E está é a trecentésima sétima vez que escrevo esta carta de despedida.
Sei que hesitarei. Sei que escreverei esta carta novamente amanhã. Minha vida tornou-se um mar de caos e beleza.
O meu erro foi tê-la conhecido naquela tarde de verão, no cais, no farol, sozinha. Ela me pegou. Ela realmente me pegou. Apunhalou-me nas costas no momento mais (in) oportuno.