O que queria te dizer
Antes o caminho serpenteava debaixo de meus pés. A vida escapava, e quando eu dava o bote, a vida se evadia. Tudo eram altos e baixos entre nós. Tudo era incerto e eu, que te amava tanto, comecei a duvidar do meu poder de amar.
Quando eu podia te amar, a saúde vinha e me arrasava. Ia para o hospital, me tratava e voltava, feliz, achando que o momento não tinha se perdido. Então você virava e dizia que nada poderia dar certo, que aquilo era besteira, ilusão, fruto da minha grande imaginação.
Quando eu estava bem, você não estava comigo. Ou viajava para tentar me esquecer, inútilmente, ou então tentava rejeitar tudo que era meu. Tudo o que eu dava para você. Mas eu, como sou muito charmoso e faço uma carinha de cão-sem-dono perfeita, te convencia para tentar mais uma vez.
Let us do it one more time, eu dizia.
Mas mesmo com esse amor inconstante e incerto, eu te amava como nunca amaria ninguém. Mesmo com todo o ódio que eu sentia por você, com toda a raiva que tinha de você e suas manias bobas de adolescente. Você era para mim tudo e nada, amor e ódio, beleza e feiura.
Foi então que meu médico disse que eu estava curado, de alguma maneira. Todo aquele problema era passado agora. Foi também nesse tempo que você ficou mais madura, mais inteligente, mais racional. Nossos problemas tinham sido solucionados e eu, que não mais sentia raiva ou ódio de você, estava livre pra te amar de novo, com todas minhas forças.
Conseguimos um amor estável. Te amava tanto...Te amo tanto, não sabe quanto. Você sabe que foi também nesse momento de minha vida que comecei a perder a fé no nosso amor. Tudo que setíamos era mútuo, lindo, frio e triste.
Perdia, pouco a pouco, o amor por você. Você parecia cada vez mais triste, mais fora de si. Ia muito ao médico, parecia que estava ficando doente. Cheguei até a achar que você estava doente como um dia eu estive, à beira da morte.
Fiquei a te consolar, dizendo que tudo é efêmero, que nada que acontecesse ia abalar o amor que sentia por você. Menti. Não sentia mais o mesmo amor. Dessa vez era diferente. Não era mais um amor mútuo e lindo, apenas frio e triste.
E veja só o que aconteceu. Parece que eu que continuava doente. Estou agora aqui, com um pé na cova, ditando minhas poucas e pequenas palavras para minha enfermeira. Você já sabia, não é? Já sabia que eu estava com os dias contados.
Não tenho muito tempo. Agora, tudo que foi dito e que foi vivido deve ser esquecido para que você continue sua vida. Que faça mais alguém feliz e instável como um dia fomos.Espero que essas palavras, logo após lidas, sejam queimadas pelo fogo e que seu coração permaneça em paz. Só queria te dizer o quanto eu amava você.
E agora, tudo o que eu quero que você saiba é que para sempre, até o infinito, seja no céu ou inferno, te amarei...