O "sonho" não pode acabar.
Chega em casa. Vê sua mãe deitada no sofá, babando no encosto enquanto assiste a tv. Aliás, enquanto a tv assiste ela. Entra em seu quarto. Troca de roupa e sente um cheiro bom no ar.
-Meu filho! -diz a mãe, bocejando- Tem sonho lá na mesa da cozinha.
-Tá bom, mãe, já sei.
-Traz um pedaço pra mim.
-Olha os triglicérides, hein mãe!
-Calaboca e traz logo o sonho.
Ele levanta ( já havia deitado, estava cansado ) e vai até a cozinha. Percebe que o sonho não mais está lá e, no lugar dele, apenas uma carta que dizia algo assim:
"Sequestrei o sonho. Sua vida não será a mesma sem ele. Entro em contato para saber o resgate."
Só faltava essa agora. Sequestrarem o sonho.
-Cadê o sonho que eu te pedi, meu filho?
-Sequestraram.
-Pára de brincar comigo e traz logo.
-Sequestraram mesmo.
-E de quanto é o resgate?
-Tá escrito aqui que eles entrarão em contato.
-Rá. Pára de brincar, solta esse telefone e traz logo.
-Eu vou chamar a polícia. Eles têm que me ajudar a reparar essa perda.
1-9-0. Musiquinha. Mais musiquinha. Uma voz eletrônica atende.
-Linha de emergência da polícia militar, boa tarde!
-Ér...Eu queria informar sobre um sequestro.
Ramal 111. Musiquinha. Agora era Bach.
-Divisão de achados e perdidos, boa tarde.
-Achados e perdidos? Não era a divisão de sequestros?
Ramal 543. Mais musiquinha. Desta vez atacaram com Bethoven.
-Divisão anti-sequestro, boa tarde!
-Eu queria informar sobre um sequestro.
-Bem, aqui é a divisão anti-sequestro, boa tarde.
-Ah, tá. Bem, sequestraram meu sonho.
-Eu disse boa tarde, não boa noite. Sonho você recupera de noite, com um bom calmante. Sabe, um bom calmante é a maracu...
-Um sonho de doce de leite com chocolate, tá bom?
-Ah, desculpe o equívoco. Como posso ajudar?
-Queria que vocês recuperassem ele pra mim.
-Que tal comprar um na padaria mais próxima? Eu soube de uma padaria que abriu ali no bra...
-Era caseiro. Único no mundo inteiro. Minha mãe que fez.
-Então vou ter que cadastrar ele na fila de espera. Espere um pouco.
Musiquinha. Olha, não é que desta vez era Chopin?
-Nome?
-Sonho.
-Não, nome completo.
-Sonho Caseiro de Doce de Leite com Chocolate.
-Idade?
-Recém saído do forno.
-Hum, delicioso.
-Não sei, não provei.
-Desculpa, pensei alto. Tamanho?
-Devias ter uns 10 por 15 cm. Mas a altura eu não sei.
-Última vez visto?
-Na cozinha, há uns cinco minutos. Em cima da mesa.
-Resgate?
-Ainda não pediram. Devem ter a intenção de matá-lo.
-Ai, que crueldade, né? Teve uma amiga minha chamada Aman...
-Vamos logo com isso. A cada segundo pode acontecer uma mordida, sabe?
-Desculpa de novo. Fico viajando muito. Outro dia eu até...
-BORA! Acaba logo isso.
-Hehe, mal aí. Hum...Acho que já acabei. Vou mandar nosso melhor farejador para encontrá-lo.
-Muito obrigado. Vem cá. Qual o nome daquela música de Chopin que tava tocando?
-Não era Chopin. Acho que a música do nosso ramal se chama tarantetla, ou coisa parecida.
-Muito obrigado.
Desculpaí, leitor. Até narradores oniscientes erram. Mas juro que essa será a última vez. Agora ele desliga o telefone e sai, sem dar explicações. Recebe uma mensagem de sua mãe no celular, dizendo que era para encontrar os bandidos em seu esconderijo. Rua da padaria, número três, atrás do beco. Foi à trote largo pra lá.
Chegando, preocupado, entra sem mais delongas. Encontra um homem com as feições descompostas. Fez-lhe um sinal e foram para uma saleta interior. Entrando, ele não pôde sufocar um grito de terror. Ao fundo, sobre o canapé, estavam algumas migalhas e pingos de chocolate de seu sonho. O homem pegou ele pela forminha, e com duas grandes mordidas, estirou-o morto em seu estômago.
O nome dele? Quindin com Cobertura de Leite Condensado.